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Reflexões sobre a passagem dos dias em uma cidade que insiste em correr
Era uma manhã de outono quando percebi que o tempo havia mudado de forma imperceptível. Não me refiro ao tempo meteorológico, embora as folhas secas dançassem no vento com certa melancolia. Refiro-me ao tempo interior, aquele que mede nossos afetos, nossas memórias, nossos pequenos esquecimentos diários.
A cidade, é claro, não parecia notar. Seguia seu ritmo frenético, com carros buzinando, pessoas apressadas olhando para telas brilhantes, e aquele som constante de construção que parece ser a trilha sonora permanente de nossos dias. Mas no parque, sentado no mesmo banco de madeira desgastada há vinte anos, pude notar a diferença.
Lembro-me de quando este parque era meu refúgio de adolescente. Na época, eu lia livros físicos, aqueles com páginas que amarelavam e cheiro característico de papel e tinta. Hoje, leio em dispositivos que não envelhecem, mas também não ganham personalidade com o passar dos anos.
Um senhor de idade caminhava lentamente com seu cachorro, parando a cada poucos metros para permitir que o animal farejasse algo invisível aos meus olhos. Parecia uma dança coreografada pela paciência. Quantas vezes passamos por essas cenas sem realmente vê-las? Quantos momentos de beleza simples perdemos enquanto corremos para o próximo compromisso?
As crianças ainda riam no playground, como sempre fizeram. Seu conceito de tempo é diferente: não há ontem nem amanhã, apenas o agora infinito do balanço que sobe até quase tocar o céu. Observá-las me fez questionar quando perdemos essa capacidade de habitar plenamente o presente.
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