Crônicas Clássicas

O jornal que preserva as histórias do cotidiano

O Tempo entre as Páginas

Reflexões sobre a passagem dos dias em uma cidade que insiste em correr

Tempo de leitura: aproximadamente 5 minutos

Era uma manhã de outono quando percebi que o tempo havia mudado de forma imperceptível. Não me refiro ao tempo meteorológico, embora as folhas secas dançassem no vento com certa melancolia. Refiro-me ao tempo interior, aquele que mede nossos afetos, nossas memórias, nossos pequenos esquecimentos diários.

A cidade, é claro, não parecia notar. Seguia seu ritmo frenético, com carros buzinando, pessoas apressadas olhando para telas brilhantes, e aquele som constante de construção que parece ser a trilha sonora permanente de nossos dias. Mas no parque, sentado no mesmo banco de madeira desgastada há vinte anos, pude notar a diferença.

O tempo é a coisa mais valiosa que um homem pode gastar.
— Teofrasto

Lembro-me de quando este parque era meu refúgio de adolescente. Na época, eu lia livros físicos, aqueles com páginas que amarelavam e cheiro característico de papel e tinta. Hoje, leio em dispositivos que não envelhecem, mas também não ganham personalidade com o passar dos anos.

Um senhor de idade caminhava lentamente com seu cachorro, parando a cada poucos metros para permitir que o animal farejasse algo invisível aos meus olhos. Parecia uma dança coreografada pela paciência. Quantas vezes passamos por essas cenas sem realmente vê-las? Quantos momentos de beleza simples perdemos enquanto corremos para o próximo compromisso?

Não tenho tempo para ter pressa.
— Machado de Assis

As crianças ainda riam no playground, como sempre fizeram. Seu conceito de tempo é diferente: não há ontem nem amanhã, apenas o agora infinito do balanço que sobe até quase tocar o céu. Observá-las me fez questionar quando perdemos essa capacidade de habitar plenamente o presente.

O relógio da igreja badalou meio-dia, mas seu som foi engolido pelo barulho do trânsito. Quantos ainda param para ouvir os sinos? Quantos ainda ajustam seus relógios pelo toque das campanhas? Criamos relógios atômicos de precisão absoluta, mas perdemos a noção do tempo humano, aquele que se mede em cafés compartilhados, em cartas escritas à mão, em silêncios que não precisam ser preenchidos.

Fiquei pensando na ideia de que cada época tem seu ritmo. Meus avós viviam conforme as estações e a luz solar. Meus pais, pelo horário do trabalho e da televisão. Nós, pela internet que nunca dorme, pelas notificações que chegam a qualquer hora, pela expectativa de resposta imediata.

O problema é que você acha que tem tempo.
— Buda

Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo, percebi que havia passado horas no mesmo banco. Não havia respondido e-mails, não havia checado redes sociais, não havia produzido nada mensurável. E, no entanto, sentia que havia usado bem meu tempo. Havia simplesmente estado presente.

A cidade continuaria correndo. Os relógios digitais continuariam marcando segundos com precisão implacável. Mas eu, naquele momento, decidi que traria um pouco do tempo do parque para minha vida cotidiana. Um tempo mais lento, mais consciente, mais humano.

Levantei-me do banco com as pernas dormentes e comecei a caminhar de volta para casa. Não corri. Apenas caminhei, observando as sombras alongadas que o crepúsculo pintava no chão. O tempo, afinal, não é inimigo a ser vencido, mas rio a ser navegado. E naquele dia, eu finalmente parei de remar contra a correnteza e simplesmente deixei-me fluir.

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Sobre o Autor

Rafael Almeida é cronista e observador do cotidiano há mais de 15 anos. Suas crônicas capturam os pequenos momentos que definem nossa existência nas grandes cidades. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, já publicou três coletâneas de crônicas que foram best-sellers nacionais.

Seu trabalho foca na beleza do ordinário e na poesia escondida nos gestos diários.